Pensamento da semana

"But we're never gonna survive, unless we get a little crazy"

Seal - Crazy
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quinta-feira, 14 de março de 2013

Poesia

Hoje é o Dia Nacional da Poesia. Especialmente para esta data resolvi experimentar meus dotes poéticos e escrever um poema. Não levem isso muito a sério.
Segue o poema:





Esqueça a métrica
Esqueça a rima
Esqueça os decassílabos
Esqueça a forma
Esqueça Camões
Esqueça a pedra
Esqueça o caminho, inclusive

Esqueça a metalinguagem
Esqueça os sapos
Esqueça Minas
Que já não há mais
Esqueça cada uma
De suas sete (ou mais?) faces
Esqueça os sonetos
E a sua fidelidade

Esqueça a dúvida
Essa dúvida que corrói a alma
E corrompe os corações
Esqueça o bonde
Mas não perca a esperança
Essa esperança acalentadora
Em um mundo mais digno
De uma boa poesia

Esqueça a Nação
Não existe Nação!
Somos um só
Um só povo, um só mundo
Somos humanos, caminhemos de mãos dadas
Caminhemos por Ipanema
Mas esqueçamos a Garota
Conheceremos outras em Pasárgada

E quem se importa se não conhecemos o Rei?
Esqueça isso, lembre-se da poesia
É o que temos, e nada mais
Aliás, não escute o canto do Corvo
São apenas palavras, e nada mais
O que interessa é a poesia

Oh sim, a poesia!
Esqueça tudo
Esqueça seus medos
Suas dores
Seus amores
Sues segredos
Suas falhas
Mas jamais esqueça a poesia
Nunca
A poesia viva
A poesia que é vida
(ou a vida que é uma poesia?)
Nunca a esqueça
Lembre
Sinta
Ame
Mas jamais esqueça
A Poesia

O que o mundo precisa
É de um pouco mais de Poesia


P.S.: Não consegui pensar num título legal (na verdade, estava com preguiça de pensar). Alguma sugestão?
P.S.: Especialmente pra esta data tive que quebra a minha regra de não postar mais de uma vez por dia. Espero que tenha valido a pena.

sábado, 21 de abril de 2012

Eu, etiqueta


Só para não perder o costume de postar, preciso escrever algo hoje. Como, para variar, estou com preguiça de escrever qualquer coisa, então nada melhor que postar uma poesia. E não pode ser qualquer poesia. Tem quer ser uma do Drummond. Então pare, leia, sinta e reflita.


Eu, etiqueta
Carlos Drummond de Andrade

Em minha caça está grudado um nome
Que não é o meu de batismo ou de cartório,
Um nome... estranho.
Meu blusão traz um lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca do cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei
Mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
De alguma coisa não provada
Por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
Minha gravata e cinto e escova e pente,
Meu copo, minha xícara,
Minha toalha de banho e sabonete,
Meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras faladas,
Gritos visuais
Ordens de uso, abuso, reincidência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim homem-anuncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
Seja negar minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcado
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso dos outros, tão mim-mesmo,
Ser pensante, sentinte e solidário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua forma humana, invencível condição.
Agora sou anuncio,
Ora vulgar, ora bizarro,
Em linha nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
De minha anulação
Não sou – vê lá – anuncio contratado
Eu é que mimosamente pago
Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscinas,
E bem a vista exibo essa etiqueta
Global no meu corpo que desiste
De ser veste e sandália de uma essência
Tão viva, independente,
Que a moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher,
Minhas idiossincrasias tão pessoais,
Tão minhas que no rosto se espelhavam,
A cada gesto, cada olhar,
Cada vinco da roupa
Resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido
Sou gravado de forma universal
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrina me tiram, recolocam,
Objeto pulsante, mas objeto
Que se oferece como signo dos outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o titulo de homem
Meu nome novo é coisa
Eu sou a coisa, coisamente.


quinta-feira, 8 de março de 2012

Receita de Mulher


Certamente você sabe que hoje é o Dia Internacional da Mulher. Parabéns a todas vocês! Sem as mulheres os homens não são nada. A maioria deles não admite isso, mas eu tenho a coragem de dizer isso. Entretanto, hoje estou meio sem saco para escrever. A inspiração ainda não veio. Em vez disso, deixarei que Vinícius de Morais fale. Ele faz isso muito melhor que eu.

Uma rosa para você, mulher



Receita de Mulher
 Vinícius de Morais

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Éluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como no âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos então
Nem se fala, que olhe com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é porém o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável.
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mas que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de cinco velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas que haja um certo volume de coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário. É aconselhável na axila uma doce
relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!).
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser frescas nas mãos, nos braços, no dorso, e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior
A 37 graus centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras
Do primeiro grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro de paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher de sempre a impressão de que se fechar os olhos
Ao abri-los ela não estará mais presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ela não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação imunerável.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

À margem do mundo

Meu último post foi um poema de Gregório de Matos. Na verdade, já postei alguns outros poemas por aqui. Não que eu seja fã de poesia. Mas é bom apreciar uma boa poesia de vez em quando. Por isso neste post publicarei outro poema.
Não que o poema seja bom. Pelo contrário, acho que não, mas a minha opinião não vale de nada. Talvez porque eu seja o autor. Não que eu seja poeta. Não, não sou. Foi apenas um poema que fiz para um trabalho de escola, de Geografia para ser mais preciso e foi no segundo ano para ser mais preciso ainda, e que por acaso encontrei entre meus alfarrábios.
Não, o poema não fala de amor, nem de desilusão, depressão, alegria, paixão, nada disso. Fala sobre ..., ah, esquece. Ninguém nunca entende o eu - lírico mesmo. Interprete do jeito que quiser.


À margem do mundo


Ergo meus olhos e vejo uma nação
Olho pra ela, vejo desolação
Tem violência e tem miséria
Tem doença e humilhação

Essa nação que agora vos falo
Deveras está à margem do mundo
E o mundo a trata com indiferença
Por que pensa que só tem vagabundo

Sim, essa nação é outro mundo
Terra de muita contradição
De miserável sugismundo
De um povo que vive na ilusão

De senhor que vive na abastança
E de servo que vive na carência
Os chefes vêm com demagogia
Mas a plebe vive de demasia

O mundo finge que a vê
E ela finge que é mundo
E que pode se desenvolver
Mas deve à Deus e ao mundo

E é uma nação assolada
Que nem Dante imaginaria
Mas as grandes não sentem nada
Pois vivem no primor da primazia

E essa gente à margem da sociedade
Pobreza é pouco para elas
– Queremos viver, não sobreviver
Diz esse povo sem dignidade

E esses lobos em pele de cordeiro
Estão aqui, mas são do estrangeiro
Sugam o nosso sofrido suor
E deleitar-se-ão na própria casa

Vejo o trabalhador trabalhando
Dando a vida para viver
Suando para receber uma esmola
E com ela comprar o que comer

E seu Zé que trabalha no campo
Sustenta quase toda uma nação
Vende barato e compra bem caro
E tudo que é um pedaço de pão

Os lá de cima assaltam o povo
Povo que é a própria nação
Fazem em operário oprimido
O operário da construção

Paciência, pede o presidente
Dá para viver com dinheiro ínfimo
Quero ver o que ele diria
Se vivesse de salário mínimo

Vejo um povo que tem fome
E são vários tipos de fome
Fome de comida e de educação
De saúde e dignidade

Vejo gente na fila do hospital
Gente doente e gente morrendo
Nem se espantam no canário horrendo
Pois a morte se tornou banal

E a morte vem à cavalo
Vem com arma e com facão
Vem para o velho e para o novo
Vem pro pequeno e pro grandão

Por isso que tenho razão
De fugir assim desse frio
De pegar o meu avião
E ir-me embora pros States

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Um exemplo de poesia cultista

Hoje, só pra variar um pouco, resolvi postar uma poesia. Um soneto, pra ser mais exata. De Gregório de Matos. Poderia comentar mais, porém vou ficar por isso mesmo. Se quiser saber um pouco mais sobre cultismo e conceptismo, clique aqui.


Um exemplo de poesia cultista
Gregório de Matos

O todo sem a parte não é todo;
A parte sem o todo não é parte;
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não as diga que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda parte,
Em qualquer parte sempre fica todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço que acharam, sendo parte,
Nos diz as partes todas deste todo.


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Rima rica e rima pobre


Hoje resolvi falar um pouco sobre poesia. Não, não vou escrever aqui uma poesia minha. Vou apenas explicar a diferença entre rima rica e rima pobre. Não sabe a diferença? Então veja:

Uma rima é pobre quando você rima duas palavras de mesma classe gramatical (substantivo, verbo, adjetivo, etc). Por exemplo, nos versos de Drummond:

“Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.”

(Trecho de “Poema de sete faces”)

Temos dois exemplo de rima pobre. Uma quando rima “mundo” com “Raimundo” (dois substantivos) e outra quando rima “solução” com “coração” (também dois substantivos).
Agora, uma rima é rica quando você rima duas palavras de classes gramaticais diferentes. Por exemplo, nestes versos de autoria do prof. Edivaldo (meu ex-professor de Literatura):

“Meu amor me abandonou
Pensando que eu choraria
Não choro nem por pai e mãe
Vou chorar por porcaria”

Eu sei, é tosco, mas quando se rima “choraria” com “porcaria” tem-se um exemplo de rima rica.
Agora alguns versos sem rima. Estes são de autoria do prof. Paulo Sérgio (meu ex-professor de Português):

“Batatinha quando nasce
Se esparrama pelo chão
Se você me ama
Por que roubou meu patinete?”

Comentário final: acho que não tenho o que escrever e fico postando estas besteiras. É a vida. Viva a cultura inútil.


quarta-feira, 13 de julho de 2011

Janelas sobre as paredes


Cheguei à conclusão que acho que não estou postando tanto quanto poderia. Então resolvi postar mais uma vez hoje. Mas como não sei sobre o que falar então resolvi colocar este pequeno poema abaixo. Leia e reflita.

Janelas sobre as paredes

Escrito em um muro de Montevidéu: As virgens têm muitos Natais, mas nenhuma Noite Boa
Em Buenos Aires: Estou com ome. Já comi o f
Também em Buenos Aires: Ressuscitaremos, ainda que isso nos custe a vida!
Em Quito: Quando tínhamos todas as respostas, mudaram as perguntas.
No México: Salário mínimo para o Presidente, para ver o que ele sente.
Em Lima: Não queremos sobreviver. Queremos viver.
Em Havana: Tudo é dançável.
No Rio de Janeiro: Quem tem medo de viver não nasce.

Cometário tosco: o sistema fede!

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Além da imaginação


Momento reflexão agora. Você está feliz agora? Tem tudo que precisa? Algo lhe incomoda neste momento. Decerto, pode ser que sim ou pode ser que não. Tem algum problema? Ora, quem não tem. Todos nós temos.
Mas pense bem, podia ser pior. Esqueça um pouco de você, só por um instante, e pense nas outras pessoas. Pessoas que passam fome, que não têm um teto ou não recebem um pingo de calor humano. Apenas por alguns minutos, pare, leia o poema abaixo e reflita.


Ulisses Tavares

Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
Entre uma refeição e outra.

Tem gente sentido frio
E não é o frio que você imagina
Entre o chuveiro e a toalha.

Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
Entre a receita e a aspirina.

Tem gente sem esperança.
E não é o desalento que você imagina
Entre o pesadelo e o despertar.

Tem gente pelos cantos.
E não é os cantos que você imagina
Entre o passeio e a casa.

Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
Entre o presente e a mesada.

Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
Entre a escola e a novela.

Tem gente que existe e nem parece que existe.

Sei que não tem nada a ver. É só pra não dizer que não falei das flores.